Ir para o conteúdo


Foto

Dama da Noite [Capítulo 2 - Verbena]


  • Entre na sua conta para responder
Nenhuma resposta neste tópico

#1 LordSnow -Ramsay

LordSnow -Ramsay

    Super-herói super-informado

  • Journalist
  • 2.792 publicações
  • LocalizaçãoMinas Gerais
  • Servidor:BR11
  • Personagem:Ramsay
  • Time:União Soviética






Reputação: 2.520

Publicado 15 outubro 2018 - 23:37

24e02b9e589b4c2381c489b506a62684.png

Ao passo que Seera se aproximava mais do grupo, a garota que havia sido jogada no lago esbravejava mais com palavras obscenas e com todos os xingamentos possíveis que tinha em mente naquela hora. Realmente estava furiosa.
Seera ainda se sentia desconfortável e um tanto quanto constrangida por ir falar com pessoas que nunca vira na vida e que muito menos sabiam de sua existência - e que rezava para que realmente não lembrassem depois de algumas horas ou dias -, mas mesmo assim continuou à passos curtos com seus sapatos velhos e desgastados até sua missão. Ela sentia que quanto mais se aproximava, mais dos jovens olhavam para ela, entre eles um garoto alto de cabelos castanho-claros, o qual vidrava seus olhos claros no andar desengonçado e estranho de Seera. Ao olhar para os jovens, percebeu que não era apenas uma sensação, era o que realmente estava acontecendo.
Mais constrangida ainda, apertou o passo e rumou até o outro lado do lago enquanto River fazia uma espécie de sorriso que estava engolindo uma gargalhada. Seera ficou furiosa por isto.
-Ei. - Um garoto mais velho do grupo achou o andar de Seera um tanto quanto estranho e resolveu ir até ela - Tá tudo bem?
Seera engoliu em seco as palavras dele e demorou um pouco para falar.
-Sim, sim. É que... - Ela olhou para os jovens pulando na água e ficou distraída.
-O que? - O jovem perguntou
-Minha amiga ali - Ela apontou para River - ela queria nadar também. Com vocês. - Seera fez uma pausa - Eu sei que é uma ideia idiota, desculpa por incomodar - E se virou para voltar até onde estava.
Voltando , o garoto segurou o braço de Seera, fazendo com que ela se virasse novamente para ele.
-Fica tranquila, tá tudo bem. É claro que ela pode. - Ele disse com um sorriso - Só... só é melhor ficar um pouco longe dos outros caras. Talvez não seja bom pra ela, ela parece nova.
-É... ela tem 14 anos. - Seera sorriu também - Obrigada. - E fez um gesto para River de positivo.
-E você? - O garoto perguntou.
-Eu o que?
-Qual sua idade? Tipo, você parece mais velha que ela. Sem ofensas. - Ele disse a ultima frase com constrangimento.
-Eu tenho 19. - Ela forçou um sorriso.
Ele sorriu e fez sinal para que pudessem ir até onde os grupo estava reunido.
River, alcançando Seera, segurou sua mão e andaram até lá como se fossem mãe e filha, irmã e irmã, amigas desde sempre. Ambas provavelmente achariam isto estranho se não fosse pela estranheza da situação recorrente, mas ambas também estavam envergonhadas, mesmo River. Na verdade, River era a que estava com mais medo, mesmo que fosse o que ela queria.
A pequena garota teve alguns problemas sociais no passado, sendo considerada ''sem-teto'' desde seu nascimento, quando morava nas ruas com seu pai já falecido e com sua mãe, que nesta hora da noite provavelmente ainda estaria dormindo na biblioteca da senhora Melanie. Assim como Seera, também era uma sobrevivente; não uma simples sobrevivente, mas uma jovem sobrevivente das ruas de Orchid Ville. Não era tão fácil sobreviver por lá, mesmo com planos governamentais não tão eficientes (como todos sabiam, mas mesmo assim não criticavam). Era uma vida difícil.
As duas garotas continuaram andando de mãos-dadas até chegarem perto de algumas meninas um tanto bonitas, segundo a visão de beleza que as duas tinham. Uma era loira com cabelos curtos e olhos claros e a outra tinha um cabelo ondulado na mesma medida do de Seera. Neste momento elas já podiam olhar para o lado e ver a garota recém jogada no lago já seca e um pouco mais calma - um pouco, não tanto. Parecia uma pessoa explosiva, mesmo que tivesse motivos para estar mal assim.
Passando pelos jovens e seguindo o garoto de antes, Seera percebeu que as pessoas se afastavam conforme as duas se aprochegavam e olhavam de maneira torta para elas. Este era um dos motivos pelo qual Seera realmente não queria ir até lá.
Ela forçava um sorriso para todos, mas poucos eram devolvidos, apenas um ou dois. Isto era algo que partia o coração de River mais do que de Seera. Ela já estava acostumada e sabia que isto poderia acontecer, mas River, mesmo que tivesse vivência nas ruas, ainda tinha um pouco de inocência e esperança de que as coisas pudessem melhorar.
-Aconteceu alguma coisa? - River perguntou baixo para Seera.
-Fica tranquila, vai ficar tudo bem. - Seera tentou confortá-la, vendo o semblante deprimido da garota - Você vai nadar e vai se divertir, não pensa muito, tá bem? - River fez que sim com a cabeça.
Poderia ser a sujeira, o cheiro ou as roupas velhas e um pouco rasgadas das duas garotas, mas Seera não tinha realmente certeza do que era. Na verdade, achava que eram todos estes fatores e mais alguns. Ela preferiria que fosse, mas não era paranoia.
Ao se afastarem um pouco de todos, o garoto que as guiou se voltou para elas novamente.
-Bem, vocês sabem nadar? O lago é um pouco profundo. - Ele advertiu.
Seera olhou para River e ela confirmou com a cabeça.
-Ótimo. - O garoto sorriu - Bem, podem ir então.
-Agora? Desse jeito? - Seera perguntou. Não tinha pensado a respeito antes.
-Bem, a menos que vocês tenham roupa de banho...
Seera suspirou e olhou para River.
-Pode ir.
-E a nossa roupa? Ela vai molhar toda... eu só tenho essa.
-Tá tudo bem River, ela seca. Eu te dou meu capuz se não secar, tudo bem? Vou entrar com você daqui a pouco. - Seera disse, comovida.
River sorriu e começou a entrar no lago pela parte terrosa mais rasa, se aprofundando conforme andava mais na água.
Seera olhava para ela entrando no lago e sorria. Podia-se ver a felicidade estampada na face de quem nunca havia nadado numa piscina ou lago. Ela era como uma criança: pequena, pura e com vontade de desbravar o mundo. Tudo que Seera um dia já foi.
-Posso estar errado, mas acho que você não quer entrar na água. Tô certo? - O garoto perguntou
-Certíssimo. - Seera sorriu - Mas ela quer, então...
Ela se sentou próximo à beira do lago e via River se aprofundar cada vez mais. O garoto se assentou do lado dela. Era um garoto de cabelos negros até os olhos e com uma barba por fazer, de estatura média e com orelhas um pouco largas.
Seera ficou um pouco feliz em saber que seu mau cheiro não o impediu de se sentar do lado dela.
-Então. - O garoto perguntou. Ambos olhando para River - Qual seu nome?
Seera, pronta para conversar (mesmo com um pouco de insegurança), dobrou suas pernas e abraçou seus olhos, não obstruindo sua visão do lago.
-Seera. E o seu? - Ela respondeu, voltando sua cabeça para ele.
-Dylan. - Ele tentou se aproximar um pouco - Você é daqui mesmo?
-Sim. - Ela notou a aproximação e ficou um pouco nervosa.
-Também sou. - Ele se aproximou mais um pouco, ficando quase grudado nela, o que a fez se distanciar - Eu nunca te vi por aqui. Onde você mora?
Seera fingiu um sorriso e não respondeu. Era delicado.
Dylan, mesmo com Seera se distanciando, aproximou-se dela mais uma vez e, com um sorriso torto, levantou a mão direita e começou a alisar os cabelos de Seera. Estavam totalmente negros com a ajuda da noite e estavam muito oleosos.
Ela estava desconfortável, mas não sabia o que fazer. Aquilo era tão diferente, tão estranho. Podia-se ouvir alguns risos disfarçados por trás dos dois, o que a incomodava e a constrangia mais ainda.
-Você é muito bonita. - Ele disse, grudando seu corpo no dela.
A insegurança e o desconforto começaram a aumentar. Ela só queria sair de lá, mas não conseguia dizer nada.
River, não percebendo nada, estava de costas para os dois e aproveitando o pouco tempo que tinha.
-Olha, eu... preciso ir pra casa. - Seera tentou se soltar. Sem sucesso.
-Ainda tá cedo. - Ele tentou persuadir - Você tem 19, esqueceu? É maior de idade e essa besteira toda.
-Eu realmente tenho que ir. - Seera empurrou-o levemente e se levantou, chamando River consigo, que estava contrariada por ter nadado tão pouco e por Seera não ter entrado no lago.
Dylan, levantando-se, forçou um sorriso malicioso para Seera e eles ficaram de frente um para o outro por alguns segundos.
-Você tem celular aí no seu bolso? - Ele perguntou.
-Não, eu n-
Milésimos de segundos depois de ouvir o não, Dylan empurrou-a com força, jogando-a no lago sem antes mesmo de perceber o que estava acontecendo. Ouviam-se risadas rápidas, porque antes de elas aumentarem, o grupo de jovens - mesmo os que estavam no lago - saíram correndo do local.
River foi rapidamente ao socorro de Seera, que voltou sua cabeça à superfície. Mesmo tendo sua parte rasa, o lago, como dito antes, era profundo.
-Seera! - Ela chutava e tirava a água do lago para chegar mais rápido.
Seera não dizia nada, apenas estava com a cabeça fora d'água e respirava rapidamente, como se estivesse sem oxigênio. Sua face estava coberta de água, mas o líquido que escorria abaixo de seus olhos não era proveniente do lago, mas sim de seus olhos que estavam vermelhos.
Ela continuava a respirar freneticamente com a boca aberta e a chorar mais ainda, parecia que estava tendo uma crise ou um ataque de pânico. Eram muitos motivos para isso, ou talvez todos eles.
-Seera, Seera. - River abraçou-a.
Ambas estavam encharcadas e mentalmente murchas como uma flor que não aguaram. Ou melhor, uma flor que foi assassinada cruelmente ou pisada. Seera continuava sem dizer nada e chorava mais.
-Seera, é melhor a gente sair daqui. A senhora Melanie vai arrumar roupas novas pra gente amanhã, vamos. - River tentava.
Seus olhos estavam dilatados e mais vermelhos ainda. Ela sentia muito frio e suas roupas encharcadas estavam a incomodando, mas ela permanecia imóvel como uma estátua que chora. Seera não acreditava no que acabara de acontecer. Não acreditava que, ainda com toda sua vivência podia ser enganada por alguém. Que alguém poderia ter feito isto. Que um dos únicos jovens que realmente se interessou por ela em sua vida toda havia a enganado e a humilhado. A sensação era terrível, era como se todos estivessem vendo um filme repetitivo que não acabava nunca, cujas cenas eram lembradas e relembradas, formando um ciclo infinito e vicioso. Era como querer que tudo aquilo acabasse, um pedido de socorro expresso por gotas d'água.
-Eu não quero ir pra lugar nenhum. - Seera disse, tossindo. - Por favor, me deixa aqui.

Editado por LordSnow -Ramsay, 15 outubro 2018 - 23:50.

  • DanLucaz e user966 curtem isto

Disse-lhe Jesus: ''Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.''
(João 14:6)[/size]
yDA9DHM.jpg La petite fleur.





0 membro(s) está(ão) a ler este tópico

0 membro(s), 0 convidado(s), 0 membro(s) anônimo(s)